
Autor:
Redação
Seção:
Memória
Publicado em:
3 de Março de 2026
Tempo de leitura:
4 minutos
Zé Andrade, em 2020, quando participou do Projeto Arte em Dialogo na Quarentena, do Museu Nacional de Belas Artes (foto arquivo pessoal - rede social do artista)
O mestre das caricaturas em três dimensões
Por: Redação
O artista plástico, ceramista e escultor José Andrade Santos, conhecido como Zé Andrade, morreu em 27 de fevereiro de 2026 no Rio de Janeiro, cidade onde viveu por mais de 50 anos e ficou conhecido por criar suas “caricaturas em três dimensões”, esculturas em cerâmica que retratavam figuras da cultura, da ciência, da política e da história com traços caricaturais (no destaque, uma de suas obras retratando o compositor Cartola)..
Nascido em 22 de janeiro de 1952, em Ubaíra, no Vale do Jiquiriçá (Bahia), aos 20 anos de idade mudou para o Rio de Janeiro, morando no bairro de Santa Teresa estabeleceu lá o seu ateliê. O seu trabalho como ceramista ficou marcado pelo seu estilo único que combinava a tradição da escultura em barro, herança cultural popular da região onde nasceu, com a caricatura, em uma simbiose entre o artesanato rural nordestino e a cultura visual urbana das grandes cidades.
O seu trabalho, que ele mesmo chamava de “caricaturas em três dimensões” onde retratava personalidades em esculturas, algumas de apenas 12 cm de altura, o aproximou dos grandes cartunistas brasileiros que admiravam sua obra.
Zé Andrade criou um espaço só para ele no Brasil. Ninguém faz igual. Seus bonecos são um retrato do país, do seu tempo, dos homens que, como ele, ajudam ou ajudaram a criar o país que nós sonhamos.
Ziraldo
Somos resistência!
Diego Novaes
Antes de mais nada, vamos deixar claro: esse Zé Andrade não se deixava abater. Em conversa recente sua resposta certeira e afiada ao meu lamento pela partida dos nossos colegas do traço Nei Lima e Deborah Trindade foi “extinção nada, somos resistência!”.
Sempre um dos grandes anfitriões do Festival Arte de Portas Abertas, em Santa Teresa, o Zé vivia e respirava a missão de popularizar a arte e fortalecer a cultura do Rio de Janeiro, de todas as formas e em todos os espaços possíveis. Artista plástico, caricaturista, escultor, ceramista, amante da literatura, do folclore, da gravura, da música e da poesia, Zé Andrade era desses cada vez mais raros hoje em dia. Sempre buscava promover o que Vinícius consagrou como “a arte do encontro”: fazer rodas de conversa, integrar os artistas, apresentar as pessoas, discutir ideias e possibilidades.
Sempre oferecia gentileza e hospitalidade, ajudava a organizar a comunidade, o bairro, a cidade. Nosso grande “bonequista” (como alguns colegas brincavam, com carinho), tinha um senso público genuíno, não era da boca pra fora. “Nós, os artistas, somos da resistência, das barricadas, do humor, da cultura”, dizia.
Na última vez que nos vimos ele me fez andar Santa Teresa pra cima e pra baixo. Eu lá quase morrendo de dor no joelho e ele parecia um menino correndo atrás de pipa. Um dos mais genuínos ícones da cultura popular brasileira era um curioso, empolgado, cheio de ideias novas. “Vou te apresentar aos meus colegas artistas, aos galeristas, a todo mundo por aqui”. E lá ia eu, tentando miseravelmente acompanhar aquele rapaz que tinha quase o dobro e ao mesmo tempo quase a metade da minha idade.
Esses dias, deixou umas mensagens pra mim. “Depois eu respondo com calma e atenção”, ponderei. Nunca façam isso! Tardiamente respondi, mandando pra ele um link de um edital cultural que podia ajudar a viabilizar alguns projetos. Respondi no dia 26/02. Meia hora depois, outro grande amigo ligou. “Diego, o Zé Andrade morreu hoje”. Fica a lição cravada pra sempre na alma: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há”.
Então é isso. Toda a nossa gratidão e homenagens não seriam suficientes para expressar a nossa admiração pela alegria, beleza, firmeza de propósito, humanidade, vida, obra e legado de encantamento que esse ser humano extraordinário nos deixou. Descanse em paz, mestre!
E como o Zé Andrade sempre nos saudava: “SARAVÁ”!
Fiquei com uma sensação de vazio. Estive com o Zé Andrade na inauguração do Museu da Caricatura e ele me convidou para ir ao seu atelier no dia seguinte, queria me presentear com um dos seus Drummonds de cerâmica. Eu havia lhe presenteado com o meu livro de caricaturas/cerâmicas de grandes compositores brasileiros. Não pude ir porque já estava com passagem de volta comprada para a manhã seguinte. Fiquei com a esperança de voltar, mas.... não deu tempo.
Genin Guerra