Desenhando e tocando seu próprio som

Autor:
Redação

Seção:
Desenhistas

Publicado em:
1 de Junho de 2023

Tempo de leitura:
5 minutos

Andre Barroso se divide entre a música e o desenho (foto: acervo do artista)

Desenhando e tocando seu próprio som

Por: Redação

Quem acompanha a Revista Pirralha conhece as ilustrações de André Barroso, seus desenhos já figuraram em jornais como O Fluminense, Diário da tarde (MG), Jornal do Sol (BA), O Dia, Jornal do Brasil, Extra e Diário Lance Folha de São Paulo, Pasquim e Correio Braziliense, também consta em seu currículo o prêmio Carioca de Humor, dois da Society of Newspaper Design e Wladimir Herzog. além do livro infantil O gato que conheceu a história e o livro de quadrinhos Codinome Boto. Mas, como se não bastasse tudo isto, André Barroso também possuiu uma carreira musical, o artista lançou seu primeiro CD em 2009 e, desde então mantêm com sua banda uma rotina de shows no circuito alternativo do Rio de Janeiro. Invasão Octopus, em 2012,  foi o segundo álbum (veja a arte da capa, feita por André, na reprodução ao lado) e seu terceiro trabalho é o EP Digital Reluz. Este ano ele vai lançar seu quarto trabalho de música pop mas com elementos que compõe a brasilidade e a memória afetiva da população. Instrumentista desde pequeno, participou de corais (como o do Centro educacional de Niterói, dirigido pelo maestro Ermano Soares de Sá), bandas (Thebanda, Só Froid Explica e Blazak!), teve aulas com diversos músicos – entre eles, Alex Magno (ex-Stress), Alex Martinho, Marcos Godoy e Mike Stern.

Para conferir a opinião de André sobre a arte a revista Pirralha conversou com o artista que, comparando a atividade de músico com a de ilustrador diz ser o desenho economicamente mais viável; "basta apenas um papel e um lápis".

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Conte um pouco de sua trajetória, como você chegou a esta dupla atividade; músico e chargista?

Resposta - As duas atividades são convergentes, pois trabalham com comunicação, mas de maneiras distintas. Desde pequeno, estou envolvido com elas. Minha mãe pintava e ficava admirando o trabalho dela e meu primo era guitarrista e também tinha essa predileção. As coisas foram acontecendo naturalmente, até que na juventude percebi que ambas as atividades me destacavam dos outros meninos nos olhares das meninas, já que não tinha muito porte físico. Potencializei a capacidade de cada uma delas naturalmente. Com a idade de profissionalização ao invés de largar uma delas para se tornar hobbie, apostei nas duas.

Música e desenho são complementares ou você precisa desligar de uma para entrar na outra?

R - Para mim, muitas vezes são complementares. Na música tenho que pensar como músico, porém a periferia do trabalho é visual. Capas, posts, clipes, visuais. Da mesma forma acontece do outro lado. Faço desenhos animados também e o contratante fica feliz quando pode me chamar para um job onde também posso pensar na música e efeitos sonoros. Tudo se encaixa sempre.

As plataformas digitais atualmente dominam o mercado musical e as charges e cartuns estão perdendo cada vez mais espaços na mídia impressa e migrando para a internet. Como você analisa esta coisa das novas tecnologias – inclusive inteligência artificial – no campo das artes?

R -São várias questões nessa pergunta. No que diz respeito as plataformas, elas deixaram o mundo musical mais democrático, porém muito pulverizado. Você precisa garimpar, pesquisar para fazer sua playlist. O mercado sempre vai se adaptar e controlar as mídias de massa, quando eles focavam no combate aos CDs piratas, o digital entrou de sola e conquistou o público. Muito prático. É importante tentar estar preparado para o mundo novo, afinal, o que a gente conhecia como mundo está se acabando. Ninguém mais vê TV aberta, senão as populações de baixa renda, logo, o público de TV está diminuindo galopantemente. As crianças não assistem mais, apenas plataformas como Youtube e redes sociais. Não sabem o que é desenho animado como conhecíamos. Assim como a IA que está chegando, não para tirar o lugar do chargista, mas sim uma ferramenta a mais. As exposições de arte que perderam público também, encontraram nas imersões um novo fôlego. É importante ter uma visão não conservadora do mundo e tentar encontrar nichos que comportem o que gostamos com novos formatos. Só assim é possível conviver o passado e futuro, entendendo e se adaptando.

"Em um mundo digital a tarefa do artista visual se torna cada vez mais importante, assim com vídeos e música. Devemos imaginar que aquele trabalho na redação, tendo vários tabloides, revistas, ficou para trás. A própria banca de jornal se reinventou, pois diminuiu a oferta de jornais e revistas, para entrar no ramo de brindes e comida. As infografias estáticas dos jornais deram caminhos a animações infográficas nos sites. Acessamos música hoje em qualquer lugar, consumimos mais do que a 30 anos atrás, graças ao celular. Olhávamos para artistas do passado e as horas que passavam usando nanquim em um original e hoje não existe mais original. É um momento emblemático em que se deve olhar para frente com coragem para propor um novo espaço para a charge."

Passamos por momentos terríveis no governo Bolsonaro quando a cultura foi quase criminalizada. Com a eleição do Lula você espera dias melhores?

R - Sim. Tem grande diferença entre Política Governamental de cultura e Política Pública. Enquanto no caso procurava-se ter algo para legitimar o governo, e que nem isso teve, outra legitima a universalização dos direitos culturais, com prioridades em serviços culturais permanentes e contemplando desde o grande artista, como o artista regional. Outra coisa, que desde a gestão de Gilberto Gil, se pensa políticas culturais construídas de maneira participativa, compartilhada entre poder público e sociedade civil em geral. Diante do crescimento da extrema direita no Brasil, a tensão será maior e progressos serão sentido de forma tímida nesse primeiro momento, mas a resistência é importante para o que precisamos, como regulamentar nossa profissão, ter apoios governamentais e condições para que se possa trabalhar em um mundo cada vez mais digital.