Homem-Aranha e a modernidade nos gibis

Autor:
Guto Camargo

Seção:
Ponto de vista

Publicado em:
13 de Maio de 2022

Tempo de leitura:
9 minutos

Homem-Aranha e a modernidade nos gibis

Por: Guto Camargo

Comemorar 60 anos do Homem-Aranha – criado por Stan Lee (roteiro) e Steve Ditko (desenhos) – que apareceu pela primeira vez em agosto de 1962 na revista Amazing Fantasy e no ano seguinte (março de 1963) ganhou uma revista própria é relembrar o renascimento dos gibis e a modernização da indústria dos quadrinhos ocorrida na segunda metade do século. O Homem-Aranha se tornou o mais emblemático super-herói surgido na cultura de massas neste período, sua importância só pode ser comparada ao Super-Homem (criação de Jerry Siegal e Joe Shuster) e ao Batman (Bob Kane e Bill Finger), estes os mais simbólicos personagens de quadrinhos da primeira metade do século XX. (1)

O que separa o Homem-Aranha daqueles super-heróis não é apenas  a diferença de datas, mas sim o contexto em que surgiram. Super-Homem (junho de 1938) e Batman (maio de 1939) eram produtos da grande depressão que resultou da crise de 1929, se prolongou pela década seguinte e só foi efetivamente superada com a II Guerra Mundial. Os heróis surgidos na depressão eram fruto direto da pobreza e da violência, que no cinema se materializou nos filmes de gangster e nos gibis em personagens sombrios que se escondiam sob identidades secretas para fazer justiça com as próprias mãos e viviam à margem da sociedade. É claro que esta fase inicial foi atenuada com o esforço de guerra quando os heróis se voltaram à defesa do mundo livre e democrático e lutaram contra a ameaça nazista, mas a domesticação final dos gibis de deu com a adesão das editoras de quadrinhos ao Comics Code, elaborado em 1954, que determinava uma série de normas para os roteiros, o que na prática censurou qualquer forma de violência ou contestação (acima a capa da revista Amazing Fantasy, nº 15, de agosto de 1962, onde é relatada a origem do Homem-Aranha).

Mas é visível que Super-Homem, com a ajuda do Batman, estabeleceu uma mitologia própria para as histórias em quadrinhos e para a cultura americana unificando e consolidando no imaginário popular as diferentes tipologias que já compunham estas narrativas; a luta pela justiça, a identidade secreta, o uniforme e a capa (e o calção por cima), os superpoderes, a indestrutibilidade, a ficção científica (com a origem extraterrestre do herói e seus poderes). Por sua vez, Batman acrescentou à origem do personagem o trauma que deflagra a personalidade sombria e vingativa, a máscara, um enredo algo misterioso e uma legião de inimigos cada um mais peculiar e exagerado que o outro. Praticamente todos os super personagens que vieram depois foram influenciados por este padrão (quando não simplesmente o copiaram).

Especificamente, o Homem-Aranha é fruto do período que o historiador Eric Hobsbawm chama de “Era de ouro do capitalismo”, inaugurado após o fim da guerra durou até o início dos anos de 1970 quando o choque do petróleo jogou o mundo em uma nova crise. Nas páginas do “Espetacular Homem-Aranha” não se vê a tragédia da depressão econômica mas sim ecos do movimento feminista, negro, contracultura e, principalmente, a forte presença da adolescência naquilo que foi o centro de um movimento surgido com os “baby boomers” (2), fenômeno que alterou o panorama da sociedade norte-americana influenciando desde a moda até a cultura e impondo novos padrões de consumo para a juventude, inclusive, enterrando definitivamente o Comics Code que cerceava a criatividade dos roteiristas das HQs.

O que Stan Lee e Steve Dikto fizeram ao criar o Homem-Aranha foi se apropriar do cânone estabelecido anteriormente por Batman e Super-Homem e ressignificá-los à luz dos novos tempos, inclusive com uma forte dose de iconoclastia e ironia. Peter Parker (o adolescente que se transforma no Homem-Aranha), assim como Clark Kent, trabalha em um jornal e namora uma colega (no caso do Super-Homem é a famosa repórter Lois Lane – já o Aranha tem uma relação com a secretária do chefe); assim como acontece com Bruce Waine a origem da sua perseguição aos criminosos se deve ao assassinato de familiares (a diferença entre eles é que Waine é um milionário que conta com a cumplicidade de seu mordomo enquanto Parker um pobretão que precisa cuidar de uma tia doente, o que, involuntariamente, atrapalha sua vida heroica); os poderes de aranha não vem de outro planeta mas sua origem também está ligada a ficção científica da era da radiação atômica que assombrava a guerra fria; os vilões do Homem-Aranha, assim como os do Batmam, são todos esquisitões e, coroando esta fina ironia, está a própria linguagem usada nas histórias, onde abundam adjetivos como fabuloso, incrível, fantástico e nos diálogos onde o Aranha se apresenta como “amigo da vizinhança”, “escalador de paredes” e por aí vai (acima a capa da revista Amazing Spider-Man, nº 1, de março de 1963).

A percepção mais aprofundada da realidade refletida nos roteiros de Stam Lee para o Homem-Aranha acaba realizando uma "revolução" na indústria dos quadrinhos e está na raiz das desavenças entre seus criadores. John Romita, artista que assumiu os desenhos do Aranha com a saída de Steve Ditko , afirma; "Stan começou a se ater às críticas sociais - esse foi o motivo dos desacordos com Ditko, já que os dois discordavam fortemente nas questões sociais. Ditko era mais conservador, enquanto Stan era mais moderado. Dikto achava que Stan era liberal, ele não era. Só era moderado. Ficava em cima do muro pra todas as coisas" (3). O fato é que estas pitadas de realidade social foram sendo incorporadas aos outros heróis da editora (que não por acaso surgiram no mesmo período) o que acaba por cristalizar o “estilo Marvel” que muda para sempre os quadrinhos.

Esta característica da Marvel se reflete na sua grande concorrente, a DC Comics, que se vê obrigada a modernizar também seus super-heróis (veja sobre as mudanças da DC AQUI), A nova abordagem dos quadrinhos que se consolidou na indústria cultural fez com que, nos dias de hoje, os super-heróis sejam a principal fonte de inspiração para o cinema "blockbuster" alicerçado nos efeitos especiais e voltado ao público jovem – e aos mais velhos que cresceram lendo gibis -, o que atesta a importância alcançada pelos quadrinhos na cultura popular contemporânea.

Steve Ditko (2 de novembro de 1927 -  27 de julho de 2018). Nascido na Pensilvânia, se alistou em 1945 e, apesar de a Guerra já estar terminada na Europa, foi servir na Alemanha onde começou a ilustrar publicações do exército. De volta a vida civil estudou na Cartoonist and Ilustrator Scholl  e entrou para a indústria dos quadrinhos em meados da década de 1950 desenhando principalmente HQs de terror e ficção científica. Ditko não se casou nem teve filhos e com o passar dos anos foi ficando cada vez mais recluso, avesso a entrevistas ou a qualquer forma de publicidade, por isso há poucas fotos suas disponíveis nos meios de comunicação, o que alimenta entre os fãs o mito do artista genial e de temperamento difícil (em 1964 a edição especial Marvel Tales Annual publica duas páginas com as fotos dos integrantes da redação mas Steve Ditko não aparece , pois, como explica a legenda, "alguns não se encontravam na cidade para fazer a foto").

Leia mais sobre o Homem-Aranha em: Super-heróis Marvel chegam a terceira idade

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(1) Uma terceira personagem igualmente importante, surgida em dezembro de 1941, foi a Mulher Maravilha, personagem com uma postura claramente feminista que percorre um caminho particular no mundo dos quadrinhos dominado por personagens masculinos.

(2) Baby Boomers é o termo utilizado para designar a geração dos nascidos no boom demográfico de 1945 a 1964 que viveram sua juventude nas décadas 1960 e 1970.

(3) Entrevista de John Romita a Tom Spurgeon publicada em O legado Romita, pág. 108, Mytos Editora. O termo "liberal" é usado aqui com o sentido popularmente empregado nos EUA, ou seja, de pessoa com tendências progressistas ou de esquerda, não se referindo, portanto, ao conceito como sinônimo de adepto do liberalismo econômico.