Cartunista Lailson foi mais uma vítima da Covid

Autor:
Redação

Seção:
Desenhistas

Publicado em:
26 de Outubro de 2021

Tempo de leitura:
6 minutos

Cartunista Lailson foi mais uma vítima da Covid

Por: Redação

Lailson de Holanda Cavalcanti, 68 anos, nascido na cidade do Recife, Pernambuco, em 26 de dezembro de 1952, faleceu por complicações decorrentes da Covid-19 conforme informou sua filha, Isabela Holanda, nas redes sociais do artista que eram atualizadas por ela. Lailson estava internado em um hospital particular do Recife, foi entubado, apresentou uma piora nas funções renais e faleceu no dia 26. Por decisão própria, ele não havia se vacinado contra o vírus e seu negacionismo causou espanto a muito de seus colegas.

Lailson foi cartunista, chargista, ilustrador publicitário e músico. Como desenhista estreou em 1975 no Jornal da Cidade em Pernambuco, lançou a publicação alternativa Papa Figo, publicou em jornais e revistas do Brasil e do exterior, entre eles, Pasquim, MAD (edição brasileira), Revista Visão, Florida Review, O Europeu, Der Stern, The Guardian, Revista Bundas, Revista Palavra e O Pasquim 21. Produziu durante 27 anos uma charge diária no Diário de Pernambuco e recebeu o Primeiro Lugar no 4º Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 1977.

Na área de quadrinhos ele adaptou clássicos da literatura brasileira e portuguesa para a Companhia Editora Nacional e escreveu obras teóricas como Historia del Humor Gráfico em el Brasil pela Editorial Milenio, da Universidad de Alcalá de Henares, Espanha e um estudo sobre a ilustração humorística no Diario de Pernambuco de 1914 a 1995, com o qual recebeu o Troféu HQ-Mix de melhor Livro Teórico de 1997.

Em sua atividade como músico também foi bastante eclético, gravou o primeiro trabalho em 1973 em parceria com Lula Côrtes; o disco instrumental Satwa (lançado nos Estados Unidos pela Time-Lag Records em 2005 e na Inglaterra por Mr Bongo Records em 2011), formou a banda de rock Phetus e compôs, em 2011, a ópera pop Nassau, em parceria com Fábio Valois, além de ter tocado blues em bandas como Blusbróderes, A Garagem e The Lailson Blues Band e se apresentado com a Lailson & Friends.

Depoimentos

Jeff Portela

O Lailson foi o primeiro cartunista que conheci na vida, quando eu tinha 13/14 anos. Levamos, eu e meu pai, meus péssimos desenhos feitos num papel tão ruim quanto, ele viu uma boa parte e me deu várias dicas que não vou me lembrar mas que certamente rondam até hoje o meu trabalho, ah,uma das que eu me lembro foi sobre o quanto ele achava legal fazer os furos dos botões nos desenhos e, ao reduzir a arte para publicar, ficavam ali bem pequenos mas presentes. Também foi a primeira vez que ouvi tantos palavrões na vida, eu não sabia que era possível tantos numa só frase. Além dele, Cleriston e Miguel também foram referências. Há alguns anos pude contar essa história pra ele através do Facebook, fico triste pela sua partida, desnecessária do meu ponto de vista, e grato pelo pontapé inicial na minha carreira, pela paciência com um menino "véi amarelo do buchão". Que enfim ele esteja bem onde e como for.

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Cláudio de Oliveira

Perdi mais um amigo para a COVID-19. Morreu nesta semana o brilhante chargista Lailson de Holanda Cavalcanti. Quem tem esses sobrenomes descende dos portugueses que fundaram Olinda em 1535, quando então Duarte Coelho veio tomar posse da capitania de Pernambuco. Lailson certamente descende de Jerônimo de Albuquerque, irmão de Brites de Albuquerque, a esposa do primeiro governador do estado. Catarina de Albuquerque, filha de Jerônimo, casou-se com o italiano Felipe Cavalcanti, dando origem a uma das mais tradicionais famílias pernambucanas.

O Holanda do sobrenome de Lailson vem do holandês Arnaud Florentz von Holand, que casaria com Brites Mendes de Vasconcelos, protegida de Duarte Coelho, que chegou com ele ao Brasil, ela ainda criança, talvez com 10 anos. Todos os Holandas de Pernambuco descendem desse casal, inclusive Chico Buarque de Holanda e seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Descobri recentemente que eu era primo distante de Lailson, pois também descendo daqueles dois casais. Mas, há muito tempo considerava ele o meu “irmão mais velho” no cartunismo.

Ainda na década de 1970, acompanhei suas charges publicadas por muito tempo no Diário de Pernambuco, na época um jornal de repercussão em todo o nordeste, inclusive em Natal. Eu folheava o Diário na redação do jornal potiguar Tribuna do Norte, onde trabalhava. Lailson foi uma voz altissonante da resistência democrática, cujo trabalho era publicado nas duas páginas editoriais do Diário, ao lado de outro grande chargista, o também pernambucano Clériston Andrade. O trabalho de ambos me serviam de inspiração.

Em 1978, fui diretor de imprensa do MDB jovem de Natal e Lailson também participava da luta democrática, vindo a ser amigo pessoal de Jarbas Vasconcelos, então deputado federal, depois governador e senador e um dos nomes da resistência democrática em Pernambuco. Conheci Lailson pessoalmente em 1985 quando fomos ambos membros da comissão julgadora do Salão Internacional de Humor do Piauí, ao lado de Millôr Fernandes e Chico Caruso (Lailson é o primeiro à esquerda na foto).

Depois, tivemos contatos em vários salões de humor pelo Brasil. Sempre simpático e de posições firmes e claras. Ele era não somente um grande artista e uma grande figura humana, como também um homem atuante na vida pública em Pernambuco, seja ocupando funções de diretor na Imprensa Oficial, seja na organização de salões de humor no estado. E também inquieto compositor e membro de uma das primeiras bandas de rock do seu estado.

Fiquei realmente muito triste ao saber da notícia de sua morte. Aproveito para enviar o meu mais profundo voto de pesar a seus filhos, familiares e amigos. Cuidemos de preservar a obra e a memória de Lailson de Holanda Cavalcanti.