Maurício de Sousa; a esfinge dos quadrinhos

Autor:
Redação

Seção:
Quadrinhos

Publicado em:
23 de Janeiro de 2024

Tempo de leitura:
8 minutos

Maurício de Sousa, a filha Mônica e suas criações durante a exposição na Casa das Rosas (foto reproduzida da rede X do artista)

Maurício de Sousa; a esfinge dos quadrinhos

Por: Redação

 O escritor e poeta César Augusto de Carvalho publicou em suas redes sociais uma nota sobre a reabertura no final do ano de 2023 da Casa das Rosas com uma megaexposição sobre a Turma da Mônica. A mostra, intitulada Sempre fui forte, é uma comemoração dos 60 anos da personagem criada por Maurício de Sousa cuja primeira tira em quadrinhos foi publicada no jornal Folha de S. Paulo em 1963. A mostra, inaugurada em 20 de dezembro de 2023 vai até 20 de fevereiro de 2024 e virtualmente monopoliza todo o espaço do casarão localizado na Av. Paulista que durante este período não realiza nenhuma outra atividade de peso.

A Casa das Rosas é uma instituição mantida pelo governo do Estado de São Paulo dedicada à poesia e literatura que se notabilizou, segundo César Augusto, pelo “trabalho de difusão e promoção da literatura de escritores muitas vezes deixados de lado pelo mercado”. A Casa das Rosas é apresentada em seu site como tendo o objetivo de “Promover o conhecimento, a difusão e a democratização da poesia e da literatura, incentivando a leitura e a criação artística, preservando e problematizando o patrimônio histórico-cultural que abriga, tanto o arquitetônico quanto o acervo Haroldo de Campos”.

Cesar Augusto de Carvalho lamenta o fato de a entidade aparentemente estar mais preocupada “em levar multidões para seu interior com uma exposição bastante distante de seus propósitos” do que com sua missão e pergunta, por fim, se Maurício de Sousa precisa do apoio institucional da Casa das Rosas.

Aproveitando a deixa a Revista Pirralha recolheu impressões de quadrinhistas colaboradores da revista que procuram decifrar a posição de Maurício de Sousa nos quadrinhos brasileiros. O resultado é um quadro bastante interessante e polêmico sobre a carreira do desenhista empresário mais famoso do gibi nacional.

Fernando Vasqs

Não tenho nada contra o Maurício de Sousa, só acho que não faz arte, nem como quadrinhista, pois sempre foi uma empresa de merchandising, nunca tive dúvida disso. Tudo o que ele faz é milimetricamente calculado pra que seus personagens sejam os mais politicamente corretos do planeta para que não ameacem jamais as possibilidades de bons negócios. E nisso, e só nisso, está o mérito, o talento, do Maurício. Até se meter no mundo das artes plásticas, a pretexto de “ensinar crianças a gostar de pintura”, ele conseguiu com aquela exposição ridícula na Pinacoteca.

Guto Camargo

Em meados de 1950/60 no Brasil houve uma grande fase para os criadores de quadrinhos e foi quando Maurício de Sousa começou a publicar suas tiras. Desde esta época se cristalizou um embate entre uma concepção mais “artesanal’ de quadrinhos que dialoga com as manifestações artísticas e uma visão que encara as HQs de forma comercial, inspirada pelos Sindycates americanos visando criar uma indústria nacional para setor. O primeiro grupo englobava alguns pequenos estúdios que reuniam desenhistas, roteiristas e outros criadores (o caso de Flávio Colin, Jayme Cortez, Rodolfo Zala, entre outros mestres) e o segundo time teve em Maurício o exemplo mais bem-sucedido, mas ele não foi o único representante pois existiram outras experiências como a de Ely Barbosa e mesmo a das editoras Abril e a Globo que operaram linhas internas de montagem de quadrinhos, na maioria das vezes de personagens estrangeiros licenciados. A crise econômica dos anos 80/90 e a implantação do neoliberalismo esvaziaram de tal maneira o mercado cultural brasileiro que só sobrou a Maurício de Sousa Produções que é hoje um dos grandes estúdios do mundo.

Flávio

Eu fico me perguntando porque as pessoas ficam falando do Homem-aranha, do legado das revistas de super-heróis, de mangá, contando histórias de personagens de quadrinhos como se fosse realidade e não estudam os meandros do quadrinho nacional; os problemas, as maquinações de bastidores, a presença da disputa de classes, o embate das ideologias. O resultado disso tudo foi o afundamento do quadrinho nacional onde sobrou espaço apenas para o modelo MSP que é muito desfavorável para todos nós.

Geuvar

Em 2001/02 recebi um convite de um amigo para ir para São Paulo. Ele me deu umas dicas para trabalhar nos Estúdios do MS, por alguns minutos eu confesso que pensei na ideia, mas como tinha acabado de mudar para Palmas perguntei para ele: e quem vai desenhar no Tocantins? Ele ficou calado. Então não fui.

Crau da Ilha

A posição do Maurício no tempo dos quadrinhos de autor, udigrudi, que valorizávamos, era a de um cara do sistema, da indústria cultural. Ele era como um ET no nosso meio, como um cara do capital, mas alguns de nós tiveram passagem pelo seu estúdio. Hoje reconheço o seu legado no sentido de constituir um repertório cultural brasileiro, como Monteiro Lobato. Vi meus filhos se alfabetizando nas revistinhas da Mônica, minha filha mais velha se saindo uma garota muito assertiva e briguenta. Ele nunca deixou de se um cara do sistema, mas atento a alguns movimentos da sociedade, abordando a causa ambiental, destacando o caipira, indígena, falando da pré história, mostrando personagens hippies e gays, sempre tudo muito estilizado. Para o mundo Disney, para a indústria, Maurício faz sentido.

Nilson

Antes de tudo, Maurício faz quadrinho comercial; fez o Pelezinho, o Ronaldinho Gaúcho, até o Maradoninha, que acho que nunca chegou a ser publicado no Brasil. Na verdade ele nega o Brasil, na casa da Mônica a tina de lavar roupa ou a caixa de correio são como as americanas. O Chico Bento é um pouco diferente mas surgiu como um personagem secundário nas tiras do Zé da Roça (imagem ao lado) que copia um personagem dos Istazunidos e usa um macacão de brim tipo americano e não a roupa típica do caipira brasileiro. Até hoje o Maurício nunca conseguiu desenhar uma onça que preste ou um tatu. Tolstoy diz que se quiser falar do mundo fale de sua aldeia, Maurício faz o contrário. O fato dele fazer sucesso não justifica sua omissão e muitas vezes adesão, fora isso é um ego gigantesco, nas entrevistas só fala dele mesmo qualquer que seja a pergunta. Quando eu publicava meu maior sucesso, o Negrim do Pastoreio no suplemento infantil do Estado de Minas, ele tentou sem nenhuma delicadeza tomar o meu lugar oferecendo de graça seus quadrinhos durante um ano. O editor recusou e me manteve pois eu era o maior Ibope do jornal na época.

Bira Dantas

No início o Maurício era um desenhista como todos nós. Repórter policial do jornal Folha da Manhã passou a ilustrar as matérias e assim abriu espaço para seus quadrinhos (Bidu, em 1959), com as tiras fazendo sucesso percebeu que não conseguiria produzir tanto, para tantos jornais, em tão pouco tempo e montou uma equipe de artistas que copiava seu traço e produzia as tiras enquanto ele as oferecia pra os jornais em um esquema de rodízio. Participou da criação da Associação de Desenhistas de São Paulo (ADESP) com Shimamoto, Ely Barbosa e outros, entidade que tinha entre os objetivos lutar pela Lei dos 60% de quadrinho nacional. Em 1964 com o golpe Maurício é colocado numa lista de esquerdistas e demitido do jornal; ele deve ter achado que a ligação com a ADESP tinha sido o motivo pois um dos integrantes, Miguel Penteado, era ligado ao PCB e politizava os debates na entidade. Maurício se afastou, seguiu com a mentalidade empresarial e ampliou seu estúdio com mais trabalhadores anônimos. O capitalismo transformou o operário das tiras e dos cartuns num burguês encantado com a possibilidade de criar um império à moda Disney: uma megaempresa com funcionários produzindo gibis, animações, filmes, peças de teatro, programa de TV, parques de diversão e venda de merchandising. Todos trabalhando a preço de banana. Quando a Petrobras me contratou para fazer o Gibi da Magic Paulinha (Instituto Passe de Mágica) soube que a MSP tinha se oferecido para criar a personagem e fazer o gibi de graça, só teriam que usar sua gráfica. Ou seja, ofereceu o trabalho dos operários de seu estúdio em troca de publicidade e contrato na gráfica. É fato que deu emprego pra muita gente, mas também demitia os desenhistas antigos com salários mais altos como qualquer empresário capitalista. Foi eficiente e ficou rico.

Santiago

Maurício fez muito pelo quadrinho como indústria lucrativa e muito pouco pelo quadrinho pensante e artístico.