A história do renascimento do Pato Donald

Autor:
Redação

Seção:
Memória

Publicado em:
4 de Novembro de 2022

Tempo de leitura:
8 minutos

Carl Barks (esq.) cumprimenta Burne Hogarth (desenhista de Tarzan) sob o olhar de sua esposa Gare Barks (abaixo a dir.) durante a San Diego Comic Com de 1982.

A história do renascimento do Pato Donald

Por: Redação

Em outubro, apesar de ninguém ter se dado conta, o Pato Donald comemorou 80 anos de seu renascimento, pois foi em 1942 que o Pato Donald começa a brilhar nas histórias em quadrinhos. Tudo começou quando Carl Barks (27 de março de 1901 - 25 de agosto de 2000), insatisfeito com seu trabalho no estúdio de animação de Walt Disney, resolve pedir demissão. O envolvimento de Barks com o universo Disney tem início em 1935 quando ele responde a um anúncio de jornal e é contratado, naquela época a empresa necessitava aumentar o quadro de funcionários para manter a produção dos curtas metragens e paralelamente desenvolver o projeto dos longas de animação cujo primeiro desenho, Branca de Neve, estava em produção (a animação estrearia em 1937 com grande sucesso).

Obter um emprego em Hollywood em plena depressão econômica certamente era uma opção tentadora para um desenhista autodidata que, como formação artística, tinha apenas um curso por correspondência. Antes da fase Disney,  Carl Barks havia publicado cartuns para a revista feminina The Calgary EyeOpener em Minneapolis entre 1928 e 1935. Nesta fase inicial seu traço seguia claramente o estilo Art Deco,  então em voga, inclusive no Brasil onde o grande representante era J Carlos.

O ilustre desconhecido

Com o início da II Guerra Mundial a renda internacional da bilheteria dos desenhos animados é afetada e tem início uma crise financeira no estúdio, Em 1942 a empresa comandada por Walt Disney passa por grandes dificuldades, inicialmente por causa da greve dos animadores na qual Carl Barks não participa uma vez que trabalhava no departamento de roteiro que não aderiu à paralisação organizada pelos animadores, no entanto, Barks  declara em entrevistas que era contrário ao movimento (veja mais sobre a greve AQU e AQUI).

O ambiente de trabalho fica carregado após o fim da greve e demissões em massa passam a ocorrer com o estúdio dividido entre os apoiadores da paralisação e os contrários. No caso de Barks, como também declarou em entrevistas, além desta situação o ar condicionado do prédio agravava seus problemas de sinusite e então ele resolve deixar o estúdio. mas a explicação dada pelo artista para sair dos estúdios Disney é bem mais simples; "achei que não queria ficar trancado naquele lugar enquanto durasse a guerra" (Gabler, pág. 462).

No período em que Barks se prepara para abandonar o estúdio a Western Publishing and Lithographing Comoany, empresa que detinha os direitos para adaptar os personagens de Disney aos quadrinhos, lança um gibi do Pato Donald e precisa urgentemente de material novo para a revista. Donald aparecia nos jornais em tiras e páginas dominicais distribuídas pelo King Features Syndicate e desenhadas por Al Tagliaferro desde 1934, mas com o gibi veio a necessidade de novas histórias, então o roteirista Bob Karp reescreve um argumento nunca filmado do Pato Donald e o entrega aos desenhistas Jack Hannah e Carl Barks (que foi um dos roteiristas envolvidos no projeto fracassado) para que seja finalizado; trata-se da história Pirate Gold que é publicada no gibi Donald Duck Four Color nº 9, de outubro de 1942 (reprodução ao lado). Neste momento tem início a carreira como quadrinhista de Carl Barks que assume não apenas o desenho mas também a confecção dos roteiros pelos 25 anos seguintes, sua carreira só é interrompida em 1966 com a aposentadoria (mas suas últimas histórias com o Tio Patinhas seriam impressas no ano seguinte).

Antes de Barks se tornar responsável pelos gibis do Pato Donald as histórias se resumiam praticamente ao pato, seus três sobrinhos e a namorada Margarida; pouco a pouco o artista vai criando novos personagens para contracenar com Donald seja nas histórias curtas, mais cômicas, ou nos roteiros longos onde vivem aventuras em diferentes pontos do globo. Sim, tudo que vem depois; o Tio Patinhas (Scrooge McDucK), os irmãos Metralha (Beagle Boys), o sortudo Gastão (Gladstone Gander), o professor Pardal (Gyro Gearloose) e a cidade inteira de Patópolis (Duckburg) são criações de Carl Barks e não de Walt Disney.

Graça aos descaminhos do direito autoral norte-americano Barks não assinou nenhuma de suas histórias e nunca teve direito legal sobre suas criações. Alvaro de Moya relata que o tradutor e roteirista de histórias dos personagens Disney na Editora Abril, Alberto Maduar, em viagem aos EUA fez questão de conhecer o desenhista "diferente" das histórias do Pato Donald. O brasileiro passa a manter correspondência com Braks que, em 1969, admite ser o verdadeiro criador do Tio Patinhas e das histórias Disney (Moya, pág. 39). Daí em diante, como não poderia deixar de acontecer, Barks vai sendo pouco a pouco reconhecido como um importante autor de quadrinhos e passa a ser chamado de o "Homem dos Patos".

Donald no cinema

O Pato Donald foi criado em 1934 pelo estúdio de Walt Disney para o curta metragem de animação The Wise Little Hen (A galinha esperta) que integrava a série Sily Symphony onde era um dos moradores na fazenda. No mesmo ano ele é incorporado ao grupo de Mickey Mouse no desenho Orphan's Benefit  para servir de "escada" para Mickey. Com seu temperamento explosivo e encrenqueiro o pato funcionava como uma espécie de "vilão" enquanto o bom ratinho era o herói. Apesar de seu temperamento difícil (ou talvez exatamente por isso) ele alcançou tanto sucesso que passou a ter carreira solo.

A primeira vez que Donald atuou sem a presença do parceiro Mickey foi em janeiro de 1937 no curta metragem Don Donald, onde ele vai ao México se encontrar com sua namorada que se chamava Donna Duck - não era ainda a famosa Margarida. Em dezembro do mesmo ano é lançado Invenções Modernas (Modern Inventions) onde o pato é apresentado como personagem principal (no anterior os créditos mantinham o nome do MIckey apesar dele não aparecer na história) mas o roteiro, que tem participação de Carl Barks não é creditado.

Portanto, quando falamos do Pato Donald (e de toda a família Pato) temos que ter em mente que o seu verdadeiro criador foi Carl Barks, mesmo que a fama e os lucros pertençam a Walt Disney, que, até prova em contrário, nunca chegou a desenhar sequer uma pena do personagem.

A VOZ DO PATO - Clarence Charles Nash nasceu em 7 de dezembro de 1904 em Watonga, Oklahoma e foi o dublador oficial do Pato Donald desde o primeiro desenho. Nash se aposentou em 1971 mas em 1982  o estúdio o chamou para dublar um urso em  O Cão e a Raposa (The Fox and the Hound) e em 1983 para uma última aparição como Donald no curta metragem Um conto de natal do Mickey (Mickey's Christmas Carol). Além de dar voz ao Pato Donald, Nash também interpretou os sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luizinho (Huey, Dewey e Louie), foi um sapo em Bambi e até a Margarida em suas primeiras aparições., o artista morreu de leucemia em 20 de fevereiro de 1985, em Los Angeles (foto de Alan Light - reprodução permitida pelo autor).

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Foto de abertura de Alan Light: (reprodução autorizada pelo autor em https://www.flickr.com/photos/alan-light/albums/72157601430944410)

Fontes pesquisadas

https://www.cbarks.dk/index.htm - Um banco de dados sobre a vida e a carreira de Carl Barks mantido pelo dinamarquês Peter Kylling.

Álvaro de Moya; O Mundo de Disney. Geração Editorial.

Neal Gabler; Walt Disney, o triunfo da imaginação americana. Novo Século Editora.

Donald Ault; textos publicados na coleção Pato Donald por Carl Barks (diversos números). Editora Abril.

https://www.okhistory.org/publications/enc/entry.php?entry=NA018