Super-heróis Marvel chegam a terceira idade

Autor:
Guto Camargo

Seção:
Ponto de vista

Publicado em:
22 de Outubro de 2021

Tempo de leitura:
11 minutos

Super-heróis Marvel chegam a terceira idade

Por: Guto Camargo

A partir de novembro tem início a maratona de comemorações sobre os sexagenários heróis da Marvel. A festa começa com o Quarteto Fantástico que chegou as bancas dos EUA em novembro de 1961 com o gibi Fantastic Four nº 1. A maratona continua em 2022 com as festas de aniversário de Hulk (The Incredible Hulk, nº 1 – maio); Homem-Aranha (Amazing Fantasy, nº 115 – agosto); Thor (Journey into Mystery, nº 83 – agosto) e fecha o ano com nada menos que o centenário de Stan Lee, que veio ao mundo real em 28 de dezembro de 1922. Os demais super-heróis: Homem de Ferro, Capitão América, X-men e companhia ficam para os anos seguintes.

Esta cronologia nos autoriza a dizer que o big bang do “Universo Marvel” foi em 1962, quando também tem início a caminhada de Stan Lee para se tornar o revolucionário do mundo dos quadrinhos sendo festejado pois “Pela primeira vez nas HQs, heróis eram retratados como pessoas reais, com recalques, neuroses, problemas de saúde e falta de dinheiro”, como sintetizou o crítico de quadrinhos Roberto Guedes.1

Esta frase, com devidas varições, resume aquilo que a maioria dos fãs e estudiosos dos quadrinhos apresentam como sendo o ponto central que diferencia a Marvel de tudo que havia antes no mundo dos gibis. É inegável que a Marvel, comandado por Stan Lee, revigorou a indústria dos quadrinhos, abriu as portas para uma geração mais ousada de criadores e preparou o terreno para o surgimento das graphic novels no mercado americano a partir dos anos de 1980.

Outra inovação que deve ser creditada a Stan Lee é a valorização dos criadores, antes seus nomes não figuravam nas páginas dos gibis e eles eram ilustres desconhecidos. Reed Tucker assinala que “O artista poderia ocasionalmente esconder uma assinatura em uma página dupla ou colocá-la em segundo plano, como, por exemplo, em uma placa de carro. (Embora a DC normalmente apagasse isso antes das páginas serem impressas)”2 e afirma que foi a Marvel que mudou isto quando passou a colocar o nome dos envolvidos, roteiro e arte, logo na abertura das histórias.

Mas, como acontece com quase tudo no mundo do entretenimento, quando a lenda é mais interessante que a realidade publica-se a lenda; como bem nos ensinou Jonh Ford em seus filmes de faroeste. E, no caso Marvel existe um bocado de lenda.

A década de 1950 marcou a maior crise vivida pela indústria dos quadrinhos, particularmente a dos super-herói. O período de declínio do gênero tem como maior símbolo o livro “Seduction of the innocent”, do psiquiatra Fredic Wertham, lançado em 1954 nos EUA que, apesar de conhecido de todo quadrinhista, nunca foi lançado no Brasil. Com o subtítulo; “a influência dos quadrinhos na juventude atual”, a obra acusava os gibis de promoverem a violência e a delinquência juvenil e desencadeou uma perseguição aos gibis dando origem, inclusive, a uma Comissão no Senado para investigar seus efeitos sobre a juventude. A comissão ouviu o depoimento de Wertham, de editores de quadrinhos e resultou na criação, pelas próprias empresas, do Comics Code Authority, que impunha uma série de regras, ou melhor dizendo, autocensura, às histórias em quadrinhos. Os gibis de super-heróis quase desapareceram das bancas e pequenas editoras foram fechadas. Uma das que estava ameaçada era a Timely, que depois viria a ser a Marvel, onde trabalhava Stan Lee e uma pequena equipe apresentada por Gerard Jones nos seguintes termos.

“O próprio Stan Lee dedicava a maior parte do tempo a escrever artigos para revistas masculinas, livros de piadas de golfe e, muito de vez em quando, uma tira cômica para jornal. Stan valorizava sobretudo a capacidade que tinha Kirby de inventar histórias num piscar de olhos. O tempo era tão curto que Stan entregava apenas uma esquematização do enredo aos artistas, e depois incumbia o irmão caçula, Larry, de improvisar diálogos que combinassem com os desenhos entregues. O resultado eram faroeste e mistérios insípidos, repetitivos e sem graça, com monstros de nomes como Rommbu, Bombu e Gomdulla.”3

Este improviso – e aparente amadorismo – uma vez aperfeiçoado por Stan Lee seria a origem do “Método Marvel” de se fazer quadrinhos que permitiu a ele controlar e supervisionar pessoalmente toda a produção dos gibis da editora que pertencia a Martin Goodman, casado com uma de suas primas. O método também está na origem de suas desavenças com vários desenhistas, notadamente Jack Kirby e Steve Ditko, que se consideram coautores de personagens e histórias.

Outra característica inovadora da Marvel é que os heróis interagiam entre si em nas diferentes revistas, o que ajudou a consolidar a ideia do “Universo Marvel” como espaço unitário. As criações da DC eram diferentes, pois cada herói habitava um mundo diferenciado (e também tinham equipes criativas próprias com editores separados).

Neste caso, mais uma vez existe uma pitadinha de lenda sobre a genialidade de Stan Lee. Como é amplamente divulgado, a criação do Quarteto Fantástico foi uma resposta ao gibi da DC, Liga da Justiça da América, onde alguns heróis da editora passaram a viver aventuras conjuntas. Como a Marvel ainda não tinha um elenco de super-heróis para reunir foi preciso criar um inteiramente novo. Isto abriu caminho para implantar a ideia de unidade entre os gibis uma vez que os super-heróis foram sendo criados em sequência um após o outro pela mesma pessoa.

Um problema que a Marvel tinha que contornar era a distribuição de seus gibis. Nos EUA havia praticamente um monopólio entre as distribuidoras e a falta de concorrência obrigou a Marvel a se submeter às regras da Independent News, que pertencia a Jack Leibowitz, que era um dos sócios da DC. O contrato assinado pela Marvel permitia distribuir apenas oito gibis por mês (além de sua linha de revistas adultas), além disso, o relatório das vendas demorava a chegar o que dificultava a avaliação sobre o quanto cada edição realmente vendia.

Estes fatores explicam por que a Marvel colocava uma série de títulos novos nas bancas e as revistas saiam de dois em dois meses alternando os diferentes gibis de diferentes super-heróis. Outra forma para minimizar esta limitação contratual eram as edições meio a meio, ou seja, dois personagens no mesmo gibi, situação que mudou somente em 1968. Esta estratégia foi repetida pela EBAL quando lançou por aqui as aventuras da Marvel.

Assim sendo, ter heróis e vilões em um mesmo “universo”, e transitando de um gibi para outro, era uma boa forma de mantê-los próximo ao consumidor. Um exemplo é o próprio Homen-Aranha, que fez sucesso em sua aparição em agosto de 1962 mas só retornou às bancas com The Amazing Spider-Man nº 1, em março do ano seguinte em uma aventura que contava com a participação do Quarteto Fantástico.

Mais do que um projeto previamente elaborado, a construção do “Universo Marvel” foi fruto das respostas práticas encontradas por Stan Lee para contornar problemas que se apresentavam para uma pequena editora que estava praticamente condenada a falir no início dos anos de 1960.

É visível que naquele período a linha “existencial” que marcou os super-heróis “humanizados e realistas” da Marvel não estava presente em todos os personagens criados por Stan Lee. Homem de Ferro, Capitão América e Thor eram super-heróis típicos que representavam o bem em eterna luta contra o mal, com a particularidade que por vezes o mal era comunista. Tony Stark fabrica armas para o exército americano e em sua estreia luta no Vietnã, Capitão América também, enquanto Thor enfrenta alienígenas para salvar a terra.

O que dá a unidade inicial a este “universo” é que os argumentos das HQs criadas por Stan Lee tem – ao contrário das fantasias simplistas da DC – referências nos acontecimentos da época; a guerra fria, a corrida nuclear e espacial, a rebeldia juvenil e de certa forma, são ecos do existencialismo e das ideias da Geração Beat. Com o passar dos anos a ala dos super-heróis bélicos vai se tornando mais “humanizada”, angústias pessoais e traumas sociais passam a dominar o conjunto das histórias e assim se consolida a marca registrada da Marvel, que era, afinal, o que a diferenciava e a tornava lucrativa. Enquanto isso, a DC continuava presa a uma visão de entretenimento infantil, típica do período anterior a II Guerra Mundial amarrada ao Comics Code que ela ajudou a criar.

Outro ponto pouco salientado quando se fala da carreira de Stan Lee é que ele não era desenhista, mas sim o escritor responsável por toda a linha de quadrinhos da editora. Isto permitia que ele se dedicasse mais ao universo ficcional dos personagens do que a forma gráfica, abrindo espaço para seus colaboradores desenhistas se expressarem criativamente, o que, como vimos, gerou grandes parcerias e alguns problemas autorais4.

Estas circunstâncias, algo fortuitas, não desmerecem a importância e a criatividade de Stan Lee, pelo contrário, demonstram que ele soube interpretar como poucos artistas dos quadrinhos o que se passava nos EUA naquele momento histórico e impor suas criações ao mercado (outro grupo que à época usava a realidade social norte-americana como matéria básica para seus quadrinhos era o pessoal do movimento underground – com destaque para Robert Crumb – mas, naturalmente, estes não participavam da indústria dos gibis).

Então, preparemo-nos para as efemérides de 2022, desejemos feliz aniversário aos nossos heróis sessentões e brindemos ao seu criador principal, mesmo que hoje em dia os super-heróis Marvel tenham se tornado apenas ativos econômicos de uma indústria cultural ancorada em fórmulas repetidas e ávida pelo lucro a qualquer custo.

Referências

1 Roberto Guedes, Universo dos super-heróis. Stan Lee a vida e a obra do criador dos heróis Marvel. Discovery Publicações.

2 Reed Tucker, Pancadaria, por dentro do épico conflito Marvel vs. DC. Editora Roco.

3 Gerard Jones, Homens do amanhã; geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. Conrad Editora.

4 Stan Lee não foi o único escritor ou roteirista importante no mundo das HQs, mas, certamente, aquele que atingiu o cargo mais elevado e obteve maior fama na indústria dos quadrinhos. Apenas como curiosidade; para que um gibi desfrutasse de uma taxa mais vantajosa no correio americano era necessário que apresentasse um número mínimo de páginas escritas, daí a publicação das cartas de leitores, editoriais e mesmos contos, o que abria espaço para alguns escritores nas editoras.